A FORÇA DA NENÉ

26-02-2018

A conversa demora a arrancar porque o português de Nené está moldado para o básico, e o básico, em Portugal, ainda é a procura por documentos e trabalho. Quando lhe perguntamos quem é Nené, do que gosta, quem era e o que queria ser, na Guiné, demora a perceber o que queremos saber e a responder à pergunta. As ideias e o português baralham-se, até porque Nené não está habituada a que lhe perguntem sobre ela.

Nené Sanca ainda não tem 50 anos. Está naquela faixa etária em que, em Portugal, nem se é velho nem novo para trabalhar. Nené ainda não teve um emprego desde que em 2013 aterrou em Lisboa. Veio a Portugal ao casamento de uma prima, diz que acabou por ficar para tratar de um problema de saúde. Mas também porque era cá que vivia o homem com quem se juntou, há 28 anos, com quem tem dois filhos, mas que só tinha visto duas vezes desde então.

Nené diz que é normal, na Guiné, um homem partir para outro país e deixar a família. Mas que não aguentava mais as saudades. Também a filha mais velha já tinha emigrado para Portugal e vive em Sines com o marido. Na Guiné ficou o filho mais novo, Jovani, que não consegue arranjar emprego, e que pede à mãe que lhe envie dinheiro para o ajudar.

Era tudo mais fácil se Nené pudesse ter cá a profissão que teve lá, em Bissau, desde que a menina se tornou mulher, e depois mãe. Comprava frutas e legumes aos produtores, para depois os vender no mercado central da cidade. Todos os dias, o trabalho começava antes das 7 da manhã e só terminava de noite. E todos sabiam que era Nené quem vendia as melhores laranjas e os mais doces ananáses.

Mas, por cá, a profissão que tinha já não lhe parece fazer o mesmo sentido. Onde procurar? Com quem falar? Como falar com os clientes portugueses? Nené quer muito trabalhar, e não tem medo de nenhum trabalho. Mas o português ainda a envergonha, e não a deixa avançar.

Por isso ter sido tão importante o dia em que a trouxeram ao CEPAC. Mais do que ajuda a conseguir os documentos que nunca mais chegam, o projecto do CEPAC ajudou-a a treinar o português, a falar para lá das palavras básicas e rotineiras. Obrigou-a a falar com os outros, e a ter mais confiança no que dizia. Primeiro passo para conseguir o estágio num lar de idosos em Campo de Ourique, com a ajuda do CEPAC.

Nené ficou muito entusiasmada com o estágio, pois pela primeira vez podia trabalhar em Portugal. Mas na primeira vez em que falámos, tinha um desejo que ainda não tinha contado aos futuros patrões: queria pedir se, de vez em quando, podia ser ela a cozinhar. Estava disposta a fazer o que fosse preciso, mas o que mais queria era um emprego ligado a cozinha - é onde verdadeiramente se sente bem. Faz cozido à portuguesa, caldeirada, feijoada, e até um couscous marroquino. E muitas outras receitas que se comem em Portugal, mas de que Nené não conhece o nome. Se vir fazer uma vez, já sabe como se faz. E ainda lhes acrescenta um toque africano, "à Nené", de chorar por mais.

O marido, Carlito, veio para Portugal com emprego garantido como ferreiro, e foi fácil conseguir a nacionalidade portuguesa. Nené achou que teria a mesma facilidade. Garante que entregaram todos os papéis para que conseguisse o passaporte português, mas os documentos demoram a chegar. E sem eles, não há emprego. Sem o emprego, o dinheiro necessário para trazer o filho para cá.

Mas nem tudo são dificuldades, e Nené ri-se, até dos problemas. Os problemas de saúde de que se queixava quando chegou já não a afligem - ajuda da medicação que cá encontrou - e pôde, finalmente, casar-se com o homem por quem se apaixonou há 28 anos.

Celebraram, com as famílias, a 20 de Junho de 2016, e Nené quer celebrar a data todos os anos, mesmo que numa pequena festa. Não tem trabalho, não tem dinheiro. Mas tem alma, tem família e tem um sorriso na cara.

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