JODMIX, O CORAÇAO DE MANTEIGA
De: Inês Cândido - Jornalista
Se sairmos da cidade de São Tomé e fizermos uns 20 quilómetros pela estrada e mais uns 15 pelo meio do mato, encontramos o sítio onde Jodmix Pita passou a adolescência. Não é preciso lá ir para saber que é o local errado para um rapaz ainda a caminho da vida adulta: trabalhou numa
plantação de cacau, das cinco da manhã, ao pôr-do-sol.
A 20 km de São Tomé ...
Se sairmos da cidade de São Tomé e fizermos uns 20 quilómetros pela estrada e mais uns 15 pelo meio do mato, encontramos o sítio onde Jodmix Pita passou a adolescência. Não é preciso lá ir para saber que é o local errado para um rapaz ainda a caminho da vida adulta: trabalhou numa
plantação de cacau, das cinco da manhã, ao pôr-do-sol.
O cacau já foi símbolo do colonialismo português e São Tomé e Príncipe já foi o maior produtor do mundo. Jodmix conhece o processo de cor: naquela roça, era ele quem ia buscar cacaueiros para serem plantados, numa viagem de quatro horas, várias vezes por dia. Também foi ajudante de tractor, nas plantações.
O patrão, pai da madrasta, deixou vários salários por pagar. E Jodmix, entretanto adulto, voltou à capital da ilha, onde nasceu e cresceu. Voltou a viver na casa do pai, mas já sem ele. O progenitor decidiu viajar para a Europa. Deixou os filhos adolescentes - Jodmix e uma irmã - com a mulher, a madrasta. Não tinha um mau emprego na ilha, mas decidiu emigrar para a Bélgica, onde tem parte da família. E os meninos ficaram, naqueles dias, para trás.
Jodmix foi ficando, saltou de emprego em emprego, mas acabou por viajar com a irmã para a Europa, em 2016. Primeiro, para Portugal, onde o pai já lhes tinha pedido papéis de residência. Depois, para Bruxelas, para matar saudades do pai. Mas acabaria por voltar a Lisboa, de onde não pretende sair.
...O mar é frio, nem pensar em voltar a entrar na água. Em São Tomé, a água é quente a qualquer hora, e havia banhos até de madrugada...
Diz que quer ficar cá, e não na Bélgica, porque sempre que o pai fosse trabalhar, ficaria sozinho. E Jodmix já teve demasiados dias e noites sem ninguém. A mãe abandonou-o quando ele ainda não sabia ler. Não há forma fácil de o contar. Ele também não parece ter percebido como é que uma mãe
pode fazer isto aos filhos. E dela não saberemos mais nada.
Voltou a sentir-se abandonado, quando o pai veio para a Europa. Soube que teria de começar a trabalhar quando tinha 14 anos. Quando a madrasta - já a única adulta naquela casa - também o abandonou. Também aqui há poucas explicações, e Jodmix, o coração mole, parece desculpar tudo a toda a gente, sempre com um sorriso no rosto. Os amigos e a família são para ele o
mais importante, e por eles muda de país, de continente, larga tudo. Mesmo que não saiba como será o dia seguinte.
Quando teve de aprender a viver sem adultos, Jodmix ainda estudava. Mas os estudos foram desaparecendo à medida que o trabalho foi aumentando. Acabo por deixar a escola, apesar de garantir que sempre teve boas notas.
Está em Portugal há quase um ano. Falamos de um homem com tanto para contar, mas que ainda não tem 20 anos. Desde que chegou que espera pelos documentos que lhe vão permitir ser português, como o avô, que nasceu cá e emigrou para São Tomé. O pai, já cidadão europeu, pediu os documentos portugueses para o filho há mais de um ano. Mas Portugal quer que trabalhe, e pague impostos, antes de lhe dar a documentação. Sabendo que, para que tenha um contrato de trabalho, precisa primeiro de ter documentos nacionais. Principalmente aquele de 11 dígitos, com que nenhum de nós se preocupa: o número da Segurança Social.
Procurou no CEPAC a ajuda para se tornar legalmente português, sentimento que já transporta com ele. Tem as saudades de casa bem resolvidas, garante, e é cá que quer ficar, com a família paterna e a nova madrasta. Está ansioso pelo 5 de junho. Nessa data terá passado um ano desde que chegou a Portugal, e é o primeiro dia do estágio que fará, através do CEPAC. Num hotel, na principal artéria Lisboeta, vai tratar da piscina, fazer a manutenção do jardim e carregar as malas de quem chegar. Mas confessa que está ansioso que haja um problema na canalização.
Quando muitos de nós ainda brincávamos com bolas e bonecas, por volta dos 12 anos, Jodmix arranjava canos em São Tomé. É a sua grande paixão, aquilo que já faz por intuição, como que num prolongamento dos braços. Espera por isso que o hotel precise com urgência de um canalizador, para que possa resolver sozinho o problema. Para que possa brilhar e, com sorte, acrescentar mais uma valência ao estágio. Porque o importante é a meta, e a meta é encontrar um emprego. De preferência, na canalização. Jodemix foi só uma vez à praia, em Carcavelos. O mar é frio, nem pensar em voltar a entrar na água. Em São Tomé, a água é quente a qualquer hora, e havia banhos até de madrugada. Nos tempos livres, prefere o computador, e torna-se DJ de música africana, hábito que traz da adolescência. Com o som baixinho, porque os vizinhos portugueses não apreciam o barulho. A sonhar com as noites em que enchia discotecas, em São Tomé.
