PORTUGAL É A HISTÓRIA FELIZ
De: Inês Cândido - Jornalista
"Foi muito difícil ficar sem um pai tão cedo. Mas aguentámos". A resiliência parece nascer com quem nasceu em África.
Eliezer Infoi ficou sem o pai quando tinha seis anos. Podíamos corrigir, ser factuais, dizer que não é a verdade total dos factos, porque o pai de Eliezer não morreu, nem desapareceu para parte incerta. Mas é quase isso que deve sentir uma criança de seis anos, quando o pai - ídolo maior - parte para outro país.
Augusto Infoi partiu para Portugal em 2002, para tratar um problema de rins, e deixou para trás mulher, uma filha com dois anos e um filho com seis, novo chefe da família. A criança que foi Eliezer não será muito diferente do agora jovem adulto: calado, voz que sussurra a história da sua vida, muita educação, sorriso doce.
O sorriso é maior desde dezembro de 2016, mês em que, finalmente, pôde vir com a mãe e a irmã (agora já com 17 anos) para Portugal, ter com o pai. Finalmente, a família ficou reunida. Eliezer ficou inteiro. Quase que pôde ter o resto da infância e da adolescência que viveu, sem viver. Porque, afinal, como pode viver-se tão novo, e em pleno, com saudades de um pai que não morreu, mas que não podemos abraçar?
A partida do pai foi também a partida de Eliezer e das mulheres para outra casa. A da avó materna. Reajustar a infância, sem o nosso pai, sem a nossa casa. O pai viajou para Portugal sem trabalho nem rendimentos, a mãe sempre foi vendedora ambulante de batata-doce e carvão, e o que recebia não chegava para sustentar uma casa. Só voltaram a ter uma casa seis anos depois - já Eliezer tinha 12 -, quando voltaram a ver o Pai: Augusto voltava a Bissau para visitar a família, e para lhes construir uma casa. Foi esse o trabalho que encontrou no Hemisfério Norte: a construção civil, o ferro em particular, deram-lhe como viver, como voltar a sustentar a família, como devolver-lhes um lar.
Eliezer sabe de cor o dia em que voltou a ver o pai, e o dia em que voltou a ter a sua casa. Fala pouco, mas daquilo que conta, lembra-se ao pormenor. De 2002 a dezembro de 2016 só viu o pai duas vezes. Quatro meses de cada vez, e lá voltava o pai a Portugal, Eliezer lá continuava a estudar e a fazer as poucas actividades de que gosta. Como cantar na Igreja.
Agora, em Portugal, Eliezer continua a cantar, sempre que pode, e está a aprender a fazer bolos e empadas. O estágio que agora faz num restaurante está a ensinar-lhe os sabores da comida portuguesa - que nunca tinha provado até cá chegar, e também a simpatia do povo português, que diz ser o que mais gosta nas pessoas com quem já se cruzou. E cruzou-se com poucas, em poucos sítios: no CEPAC, onde procurou ajuda para se integrar, no restaurante onde agora trabalha, e na Igreja do bairro que o acolheu.
A Religião dá-lhe a força e a fé que precisa para se adaptar agora a um país que não é o seu, mas onde se tornou mais feliz. Cá, como na Guiné Bissau, Eliezer ensaiava toda a semana com os colegas, para cantarem na Igreja ao domingo. É o que mais gosta. Não liga ao futebol, nem a outros hobbies. Poucas coisas o animam como o canto, e também como a leitura: gosta de ler, lê sempre que pode, tudo o que pode, seja ficção ou para a escola. O 12º ficou feito em Bissau, e agora sim, e já em Portugal, Eliezer quer cumprir o grande sonho que tem: mesmo que não venha a trabalhar na área mais tarde, e mesmo que tenha que viver toda a vida de outra profissão, Eliezer, de 21 anos, quer completar uma licenciatura em Administração Pública. Até já pediu ajuda à Embaixada da Guin. E se estes planos se concretizarem, estará a estudar em Aveiro ou em Évora, no próximo ano lectivo.
Porquê Administração Pública? Por palavras, mal responde. Mas o sorriso, doce, esse não engana. A família já está de novo reunida, Eliezer já pode sonhar e ir à luta.
